maio 24, 2011

SEGUINDO AS PEGADAS DE ZILA MAMEDE

ROSAMARIA MURTINHO SEGUINDO AS PEGADAS DE ZILA MAMEDE
 ZILA GERMINA NA TELA
Curta em homenagem a poetisa Zila Mamede

Por
Yuno Silva
 &
 Maria Betânia Monteiro

A poesia de Zila Mamede ganha contornos oníricos e audiovisuais no curta-metragem “Pegadas de Zila”, selecionado para integrar a mostra competitiva da 21ª edição do Cine Ceará. Com roteiro e direção do potiguar radicado no Rio de Janeiro, Valério Fonseca, e trilha sonora do cantor e compositor Dudé Viana, o filme tece colcha poética de retalhos tendo como protagonista a atriz Rosamaria Murtinho, na pele de uma mulher que revive e passeia pelas memórias da poetisa nascida na Paraíba e criada no Rio Grande do Norte, que sonhava em conhecer o mar. “Pegadas de Zila” tem 11 minutos de duração, foi rodado em Natal e no Rio de Janeiro, e a participação no festival Cine Ceará marca estreia nacional. O evento estará em cartaz no Teatro José de Alencar, entre os dias 8 e 15 de junho, em Fortaleza.

“O projeto existe desde junho de 2010. Quando voltava de um festival de cinema em Jericoacoara, onde fui participar com o curta ‘Maria Ninguém’ (2008), passei por Natal para rever a cidade e comecei a filmar lugares onde passei minha infância”, disse Valério, radicado há quase vinte anos na capital fluminense. “Queria fazer um outro tipo de registro, mas não sabia exatamente o quê. Quando cheguei à Praia do Meio, fiquei encantado com as imagens captadas e, apesar de conhecer pouco sua poesia, Zila Mamede não saía da cabeça – sabia da relação que ela tinha com o mar e de sua morte trágica, em 1985, quando nadava no Rio Potengi. Assim surgiu ‘Pegadas de Zila’”, lembra o diretor.

Realizado sem o amparo de leis de incentivo ou editais públicos, o curta-metragem levou cerca de 10 meses para ficar pronto. “Gravamos tudo em quatro dias, externas e internas, e o melhor é que não gastamos quase nada: foi tudo na amizade, tudo por amor mesmo”, comemora Fonseca, que conheceu Rosamaria Murtinho através de uma amiga em comum, a atriz e cineasta cearense Aurora Miranda Leão: “Murtinho era minha primeira opção, é uma atriz maravilhosa, sensível e ajudou muito na realização com ideias geniais. É interessada em trabalhar com projetos de curta-metragem, e se envolveu de maneira especial com a poesia de Zila Mamede, que ela não conhecia”.

O tom onírico vem da experimentação do diretor em não se prender a formatos: “Optei por uma abordagem experimental por não ter a pretensão de produzir um documentário nem uma obra de ficção. O mar é um grande personagem no filme, ele nos engole; Rosamaria Murtinho também não interpreta Zila, seu personagem se confunde com a figura da poetisa”, explicou Fonseca, que fecha o filme com o poema “A Ponte”, musicado por Dudé Viana. A ficha técnica ainda inclui still e produção executiva de Aurora Miranda Leão; still em Natal de Letícia Santos, arte de Iziane Mascarenhas, e montagem de Saulo Moretzsohn.

O diretor de “Nas Pegadas de Zila” começou sua carreira há mais de 20 anos, no Rio de Janeiro, onde estudou teatro no Tablado e na Casa de Artes Laranjeiras e fez cinema na Escola Darcy Ribeiro. Como curtametragista, produziu curtas “Maria Ninguém” (2008), sobre a passagem de Brigtte Bardot em Búzios (RJ) nos anos 1960 com Fernanda Lima no papel principal;  “Chapada”; “Céu de Dor”; “A maldição de Berenice”; e “Dona Eulália”. Com “Maria Ninguém” foi premiado em Los Angeles como melhor curta internacional de 2010.

Esta é a segunda vez que uma temática potiguar concorre no festival. Em 2010, o curta “Dona Militana, a romanceira dos oiteiros”, do paulistano Hermes Leal. 
 
UMA POTIGUAR NASCIDA NA PARAÍBA

“É o chão onde nasci, e eu gostaria que ela (Nova Palmeira) fosse no Rio Grande do Norte, porque me sinto tão norte-riograndense, que tenho susto quando olho a minha carteira de identidade. Nisso não há nenhum preconceito contra a Paraíba. Apenas fui transplantada muito pequena, a tempo de me sentir enraizada no Rio Grande do Norte. Daí porque eu digo que gostaria que Nova Palmeira, a vila fundada pelo meu avô e pelo meu padrinho de batismo, fosse no Rio Grande do Norte. Era uma fazenda, uma vila, hoje é mais um município brasileiro, mas não é como município, e sim, como sítio do meu avô que permanece na minha geografia sentimental”, declarou Zila Mamedi.

Zila nasceu em 1928, em Nova Palmeira, Paraíba, onde viveu “até cinco ou seis anos de idade” indo ao roçado do avô “comer melancia, tomate, cereja, um tomate pequeno que brotava no mato”. A família de seu pai era de Caicó, Rio Grande do Norte; o avô materno, de Jardim do Seridó, também no Rio Grande do Norte. “Por coincidência, todos foram morar em Picuí, Nova Palmeira e Pedra Lavrada”. As famílias se encontraram em Nova Palmeira, onde ela nasceu.

Ainda pequena, muda com a família para Currais Novos (RN), onde o pai monta uma máquina beneficiadora de algodão. Menina do sertão, o mar viria a ser uma forte presença em sua poesia. A primeira vez que o viu foi por volta dos doze ou treze anos, aquela coisa “balançando de um lado para o outro, uma coisa que eu jamais havia visto”:

“- Meu pai, isso é o mar?
Ele disse:
Não. Isso é um canavial”.

Estavam em um Ford 39, a caminho de Recife, onde ela finalmente veria o mar. 

Em dezembro de 1942, em plena Guerra, vai para a capital, Natal, juntar-se ao pai que já estava desde o início da montagem da Base Aérea de Parnamirim, onde ficavam os americanos. “Lembro que cheguei e vi aquele quintal cheio de cajueiros, de mangueiras, chovia aquela chuva do caju e a gente não entendia como era que chovia em dezembro, e eu corri e vi um pé de sapoti, assim esbranquiçado, e perguntei se era um pé de ovo”.


UM MAR DE LIVROS E LEMBRANÇAS

Assim era Zila. A própria figura da menina inocente do sertão nordestino. No Colégio da Conceição aprendeu o português que usaria com mestria. Ao terminar o curso secundário, em 1949, foi passar uma temporada em João Pessoa e Recife com seu padrinho de batismo, Francisco de Medeiros Dantas, um homem culto que descobriu que a afilhada “era analfabeta em matéria de literatura” e, a partir de então, começou a lhe dar coisas para ler.

Depois de uma tentativa frustrada de ser freira (o que o pai não queria), voltou para Natal e começou a sentir “saudades do céu”, uma angústia existencial que a levou a escrever. Zila tinha, então, 21 anos.

Pesquisou a obra e organizou a bibliografia de Cascudo e do pernambucano  João Cabral de Melo Neto, que a incluiu entres os maiores poetas do país.. Escreveu seu nome na literatura potiguar ao lançar os livros “Rosa de Pedra” (1953); “Salinas” (1958), com o qual ganhou prêmio em Pernambuco; “O Arado” (1959); “Exercício da palavra” (1975);  a coletânea “Navegos” e “Corpo a corpo” (ambos de 1978); e a “A herança” (1984)”. 

CARTAS DE DRUMMOND

Seus poemas tinham uma arquitetura precisa, na descrição de seus afetos. Tanto, que a distância existente entre o Rio Grande do Norte e o resto do país se tornou mínima, mesmo antes do avanço dos meios de comunicação. As cartas fizeram com que Zila Mamede se aproximasse de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira. Semideuses da poesia, que foram tocados pelas composições de Zila.

Em uma das cartas de Drummond enviadas à Zila Mamede, ele diz: “Zila amiga querida, seu livro está aqui, encantando um velho leitor que já o conhecia bem e agora se alegra de tornar a ver o amigo. Tão puro ele é em sua aderência à terra, aos bichos, à vida natural – e tão enriquecido pelos requintes de espírito daquela que o escreveu! Obrigado pela boa visita, amiga. Senti você conversando comigo”. Drummond se referia ao livro “O Arado”, publicado em 1959. E foi esta mesma Zila Mamede, querida dos semideuses, a primeira a comparecer no lançamento do livro “Marrons Crepons Marfins” da estreante Marize Castro, em 1985.

1985
A DESPEDIDA

A morte de Zila Mamede foi anunciada em todos os veículos de comunicação da cidade e de outros estados, manifestando a enorme perda. A matéria publicada na TRIBUNA DO NORTE, em 14 de dezembro de 1985, dizia: “Sexta-feira 13 de dezembro, fatal para as letras e a política do Estado. Morre Zila Mamede... Ontem pela manhã, como fazia todos os dias, saiu cedo de sua residência, no edifício ‘Morada Caminho do Mar’, na rua Seridó, para uma caminhada na Praia do Forte onde, em seguida, costumava fazer algum tempo de natação... Mais tarde seu corpo foi encontrado na Praia da Redinha”

...fontes... 
Yuno Silva  
Maria Betânia Monteiro 

...mais...
  Zila "Mulheres de Destaque" 
Homenagem da Camara Municipal de Natal/RN

vídeo - parte 1/2
http://youtu.be/54zgD8Nosvo

vídeo - parte 2/2 

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